O título pode soar um tanto quanto pretencioso mas é proposital, pouquíssimas pessoas compreendem qual a relevância da arte dentro da nossa sociedade. Aqui vou tentar discutir um pouco da função da arte envolvendo um pouco mais a arte contemporânea, tentando assim alterar a forma como enxergamos as obras de arte que nos rodeiam.

 

Kazimir Malevich - Quadrado negro sobre fundo branco
Kazimir Malevich – Quadrado negro sobre fundo branco

Sabe quando você se depara com um quadro cheio de formas, riscos e cores e não entende nada? Ou até mesmo uma imagem simples como o quadro do Malevich (figura acima), quadrado preto sobre fundo branco feito em 1915, é de fácil compreensão a mensagem da obra? Se você visse uma obra de arte e compreendesse todo o seu contexto e mensagem a ponto de ter um entendimento completo sobre a obra, seria muito mais interessante não é? Pena que diversos fatores criam ruídos entre o emissor e e os receptores, que não são apenas receptores mas também transformam a mensagem ao fazer parte dela. A ação transformadora da arte seria mais efetiva se alcançasse um número maior de pessoas, que em maioria não sabem nem para que serve a arte.

 

Dancers and Flutists
Dancers and Flutists

Qualquer historiador pode se utilizar da arte para compreender a mentalidade das pessoas em sua respectiva época. Através da cultura e de variáveis como a economia, saúde e condições naturais, pode-se ver os reflexos da sociedade retratados na arte. Parte da função da arte é o registro, relatando de várias formas, e através de vários olhares, os acontecimentos ao seu redor. Mesmo atualmente os artistas nos mostram ideias e situações através de seu próprio ponto de vista, a obra é representada através da subjetividade do autor aumentando assim sua densidade informacional sobre questões que não permeiam o cotidiano de todos. Como é inerente do artista, ele nos mostra conceitos os quais ele julga importante compartilhar através da sua própria forma de representação. Os artistas expõe suas ideias mimeticamente.

 

Grafite no vale do anhangabaú - OSGEMEOS
grafite d’osgemeos – Fotografia: Sandro Fortunato

A arte segundo o conceito de estranhamento de Chklóvski tem como objetivo ampliar a percepção das pessoas exatamente com o estranhamento, mostrando uma nova forma de ver um objeto, uma nova forma de ver o mundo. Esse estranhamento, que nada mais é do que se deparar com o diferente, desvia um pouco sua vida da rotina e traz novas maneiras de enxergar as coisas à sua frente, expandindo a capacidade cognitiva do receptor. “A densidade perceptiva de um mundo insólito é a principal característica da arte” (FERRARA, Lúcrécia D’Aléssio.1981)

Toda a função de comunicar da arte some quando o entretenimento se basta, a arte digital não tem o devido cuidado com relação à explanação das ideias do projeto. Ao menos no Brasil, nas exposições de arte digital poucas vezes há um monitor ou quadro informativo próximo que contextualize o visitante para que a obra faça sentido, que a função para a qual foi designada seja concluída. A mensagem nunca será transmitida com êxito se parte fundamental da obra, que é a transformação do homem com o objeto, se detém à interação.  A capacidade transformadora da arte é extremamente minimizada quando o foco é somente o visual e não as questões que a envolvem, o públlico se encanta com o movimento, com as luzes e os demais atributos, a falta de conhecimento sobre o assunto ou sobre o contexto de uma exposição artística é algo que deveria ser sanado, tanto por parte das organizações que abrigam essas exposições quanto por parte dos visitantes.

As obras de arte tem como intuito primário a comunicação, toda criação artística tem como função comunicar algo, seja ela uma questão contemporânea ou uma sensação subjetiva, a grande questão é que a arte sai da zona de conforto e busca novas formas de comunicação, essa busca aprimora a forma como o homem representa o mundo em que vive. Nos primórdios da humanidade foram criadas formas de representação das coisas que cercavam o homem, como as pinturas nas cavernas de Lascaux na França, que aprimoraram a forma de comunicação entre os grupos sociais da época, nós estamos em constante evolução e continuamos tendo a necessidade de representar todas as novas descobertas, criando analogias entre a abstração informacional que é um fenômeno científico e a sua representação inteligível para os estudos, quando a capacidade de representação é ampla se torna mais fácil para o homem compreender o mundo em que vive.

A capacidade de imersão em uma realidade ficcional é o ápice da expansão perceptiva, transformando a maneira como nós interagimos com o mundo e principalmente a forma como o interpretamos. Sensorialmente somos capazes de fazer diversas assimilações com as coisas ao nosso redor e de forma quase automática, por exemplo quando estamos andando na rua e uma infinidade de acontecimentos nos cercam. Para saírmos dessa nossa automação mental, mesmo que ela seja necessárias as vezes para agilizar nossas ações, precisamos constantemente questionar as coisas, enxergar de diversos ângulos e desenvolver a capacidade crítica daquilo que nos é mostrado à frente, evitando dessa forma a alienação. Quando imergimos num mundo fantasioso, seja uma história em quadrinhos, filme ou livro, nós entramos um universo com regras próprias e com diversos acontecimentos dentro dessa realidade, expandindo a esfera da nossa percepção nos capacitando para interpretações mais inusitadas e nos tornando mais criativos, propiciando um repertório maior.

 

Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte. Georges Seurat, 1884 – 1886.

Pra quem ainda não se convenceu da importância da arte podemos fazer uma relação com algo mais próximo de nós, como alguns sabem os impressionistas contestavam o uso da cor como era imposto pela academia, novos estudos então foram feitos sobre a forma de comportamento da cor, no século XIX. Constataram que a cor se modifica de acordo com a luz do ambiente, os pontilhistas também fizeram estudos sobre o comportamento das cores aos nossos olhos, criando grandes telas com lindas paisagens formada por pontinhos e uma paleta de cores reduzida. Nossos olhos se encarregam de montar a imagem sem ela aparentar ser formada por pontos, ideia essa que partiu de um grupo de artistas que questionavam as coisas e a maneira como elas procediam; sem esses questionamentos e estudos artísticos talvez não tivessemos tido tão cedo algumas revoluções tecnológicas e socias como a televisão e nossos amados pixels.

A arte é a busca do homem pela compreensão do mundo, quando unida às ciências ajuda o homem a enteder e prever o mundo em que vive. A função do artista é implementar questões à percepção, quebrar os padrões cristalizados da sociedade e possibilitar a expansão dos limites cognitivos daqueles que interagem com suas obras.